terça-feira, 16 de novembro de 2010

Homofobia virou piada

Pela primeira vez, um texto que não tem a ver com música, moda ou entretenimento. Esse texto é um desabafo.

Estamos em 2010. A Idade Média, berço do preconceito e intolerância gerada pela Igreja e pelo cristianismo, acabou há mais de 400 anos. E onde estamos agora?

Quase todo grupo social tem suas organizações políticas e manifestações para tentar garantir direitos civis, espaço e uma boa qualidade de vida. Isso inclui (entre outras tantas coisas) segurança, respeito e o direito de andar na rua sem ser rechaçado, ridicularizado, espancado ou assassinado. Movimentos LGBT têm força enorme em países da Europa e nos EUA, principalmente. Na Islândia há até políticos de cargos importantes que são gays.

Mas e no Brasil? A Parada Gay é hoje mais uma festa do que uma tentativa de ganhar visibilidade política. Beijaços e passeatas são lendas urbanas. Jovens são vítimas de preconceito verbal e físico todos os dias, vez ou outra um caso ganha mais visibilidade por um dia ou dois. Depois tudo se esquece, e os agressores continuam na impunidade. 

Para citar um caso bem recente, nesse final de semana um jovem em SP foi espancado em plena Av. Paulista por 3 rapazes que bateram nele com uma lâmpada, chutes e socos. Eles estão soltos, e a desculpa dos pais é que eles foram assediados (leia aqui). Então se eu receber uma cantada de uma mulher, eu posso descer a mão nela também?

Enquanto isso, o conservadorismo volta a ganhar força, associações e fundações (principalmente religiosas) ganham o direito de ser homofóbicos. É o caso do Mackenzie, cujo chanceler divulgou carta aberta utilizando discursos do séc X (leia aqui).

Eu esperava que houvesse reações inteligentes, mas em um país onde o legal é fingir que não é gay ou ser o mais parecido possível com a lenda do "macho", as pessoas têm seguido uma tendência que me deixa angustiado. Pessoas que poderiam representar uma idéia positiva e levar conhecimento aos ignorantes - lembrando que preconceito nasce na ignorância - fazem justamente o oposto. Transformam em piada o que deveria ser levado a sério.

Preciso dar dois exemplos e deixar algumas coisas claras: 
Não conheço os donos desses perfis e não tenho problemas pessoais com eles, só acho de extremo mau gosto o que foi dito.
Não estou lançando nenhum tipo de campanha contra eles ou ataque.
Só quero chamar atenção para esse tipo de comportamento.

Primeira do dia foi da @katylene, cuja piada faz referência ao menino espancado na Av Paulista:



O segundo foi do @FabioRex, ironizando a história do Mackenzie e manifestações:



Repetindo, não quero lançar nenhum ataque contra @katylene ou @FabioRex. Esse post é um desabafo sobre o que eu julgo ser muito importante e é diminuído por piadas e comentários do tipo. Fazer piadas pode ser um jeito de tentar superar ou negar um fato sério. Eu prefiro acreditar que seja esse o caso, e acredito que os dois citados inclusive saibam a seriedade de ser espancado ou morto por ser homossexual.

Eu sempre vejo humoristas e pessoas públicas fazendo piadas e acabando com a frase "nada contra, é só uma piada". E sempre digo o seguinte: se você acha que não é preconceito, troque os termos "viado, gay, homossexual, bicha, etc" por "preto" e veja se a piada continua parecendo inofensiva. Se você achar que ficou pesada e de mau gosto, já sabe por que.

Eu sou gay, não tenho vergonha ou culpa. Espero um dia poder casar, ter filhos e não ter medo de sofrer retaliações. Minha vida íntima não diz respeito a ninguém a não ser aqueles que me cercam, e disso não posso reclamar. Meus amigos e família me amam e me apoiam. Mas a grande maioria das pessoas não tem essa situação. Muitos vivem escondidos, disfarçando, mentindo. Muitos vivem sob ameaça física, com medo e culpa.

Ao falar de homossexualidade e direitos, os próprios gays devem se lembrar que não existem apenas meninos  e meninas ricos que só andam de carro e moram em bairros amigáveis. Ironizar esses acontecimentos é desmerecer todas as pessoas que não estão nesse círculo social.

O resultado desse avanço da maioria conservadora contra o retrocesso da minoria vai criar um resultado feio, e a culpa vai ser de todos. Principalmente dos que se calaram e dos que tiraram a credibilidade dos que não se calaram.

É uma tristeza imensa ver a causa gay e homofobia virarem piada. Minha consciência está limpa e fico menos triste por ter amigos, conhecidos e família que pensam e agem como eu.

33 comentários:

Leonardo Becker disse...

Assino em Baixo! Seu desabado é o de muitos que ainda não tiveram a sua coragem, mas esperam que esse país melhore.

Carlos Alberto disse...

Tem sempre alguém fazendo uma "piadinha" que já perdeu a graça e se tornou em outra coisa.

Anônimo disse...

fico feliz que existam pessoas que pensam como vc...
as pessoas hoje olham para as atrocidades que a humanidade cometeu no passado e acham um absurdo, mas não vêem que fazem o mesmo, mas de uma forma adaptada pros dias de hoje (ou não)
centenas de anos se passaram e parece que nada mudou

F. Bassetti disse...

Eu acredito nas piadas boas.
Até que fazem com gays... mas existe um limite. E é muito tênue.
É exatamente aí que as pessoas perdem a noção! Eu sou ator e homossexual... farei um papel agora de uma bixinha afetada e só super light.
Mas eu sei exatamente onde parar! E é isso que falta nos outros... a Katy é o guri DJ lá (esqueci nome) e ele é gay! As vezes, os próprios homossexuais deturpam as piadas e passam dos limites.
Como vivemos (ainda) em uma sociedade preconceituosa, fixamos coisas que são difíceis de quebrar (falando em questões paradigmáticas)... Há muito que aprender, que reinventar...
precisamos de um novo BOOM na consciência do senso comum e acordar a sociedade.
Isso começa na escola... sim minha gente... não é só de pai e mãe, mas da escola tb.
Temos que mudar muita coisa do sistema e estamos aqui para fazermos nossa parte!
Adorei o post!

Beijos!

bruno bottino disse...

é impresionante como aqui tudo vira piada e nada concreto seja feito.

o cidadão é tratado como palhaço, característica confirmada com o seu comportamento inerte. as paradas gays acontecem todos os anos e o que vemos é uma micareta, um circo. gays tratados como bichos estranhos no zoo por uma imprensa zoada e estereotipada.

parece também que problemas como esse jamais irão chegar até os piadistas full time com a sua postura que, mesmo negada, está lá: superior, irônica, totalmente a parte. isso deve ser cool e provavelmente deixa os ditos cujos imunes a qualquer violência. amém!

Fabio Allves disse...

Acho que falou bem Bruno!
Estou cansado de ouvir piadas de mal gosto também! acho que esse caso é muito sério e devia ser levado a sério pelos comediantes da internet, incluindo @katylene que acha que a vida é uma festa e pode fazer xoxo de tudo e todos, e o @fabiorex não deve ter se expressado muito bem!

Acho que devemos deixar bem claro que somos assim como todos pessoas que merecem respeito seja na rua, no ambiente familiar, trabalho, em casa ou qualquer que seja o lugar!

Abraços...

@fabioallves

Celso Dossi disse...

O humor inteligente também serve para educar. Não vi nada demais em ambas as tuitadas, mesmo pq a Katlyene tava falando dela(e) mesma(o).

Antonio de Castro disse...

sem sombra de dúvidas, é o melhor post do dia.

concordo em número, gênero e grau.

Maíra Domingues disse...

Parabéns pelo post, Bruno.
Como citado, o preconceito nasce da ignorância. Uma atitude mais forte com relação à esclarecimentos, valores, ética, respeito mútuo é necessária e virá com manifestações e empenho social e político. Um vitória à nós, negros, que galgamos diversas vitórias e continuamos na luta. A causa LGBT está criando força e também vai galgar as suas.
São processos lentos e árduos, mas todos muito válidos. Espalhar conhecimento, na minha opinião, é essencial para que esses processos sejam menos sofridos.

Liliane Ferrari disse...

bruno

clap clap clap!!! vc tá coberto de razão no sentido de estar 'iluminado nas ideias' p condensar tudo tao bem num post!

se tem uma outra coisa q detesto é mulher dizendo: ai so tenho amigo gay, meu amigo gay, tipo eu tenho um cachorrinho....péssimo isso tbém!! e super esteriotipado.

enfim, eu cheguei a dar RT no Fabio pq acho essa coisa de se manifestar com beijaçø já teve seu valor, e de repente banalizou geral! mas nao vi como algo pejorativo ao gay.

super bjo e arrasa no blog!

Danilo Lisik disse...

Ótimo texto.
Precisamos de mais pessoas assim.

Pedro disse...

Não discordo da indignação, mas de como ela foi colocada.
Casos como os dos jovens da Av. Paulista e o baleado por um militar no Rio são revoltantes, mas não vejo nada demais na reação da Katylene ou do FabioRex (ou de quem quer que tenha reagido com humor).
Aliás, acho o humor uma estratégia eficaz em ridicularizar esse discurso conservador que infelizmente ainda encontra espaço na sociedade e na mídia. E se alguém pega um fato repulsivo como este e esfrega na cara dos conservadores (mesmo com humor), pra mim está ótimo!

edinhoadla Spy boy disse...

Não há nada de piada ou engraçado no comportamento homofobico da sociedade.

Infelizmente muitos ainda vivem com a falsa cortina de fumaça das festas e badalações do mundo gay... achando que isso, o preconceito, nunca irá atingi-los.

Há agora o discurso dos direitos civis e da carta Magna e sobre o direito de livre expressão.

Há pouco mais de um século atrás a igreja se juntava ao restante da sociedade e proibia a entrada de negros na igreja alegando que os mesmos não possuíam alma.

Dizer que a lei contra a homofobia vai contra o direito dos religiosos e seus ensinamentos é o mesmo que dizer que a lei contra o racismo ou que garante os direitos de igualdade as mulheres, vão contra os ensinamentos sagrados da bíblia, já que lá prega se a escravidão como algo normal e aceitável e que mulheres devem ser submissas aos homens.

Século XXI já nessas mentes jurássicas.

Marcel Costi disse...

Parabéns pelo texto. Endosso a sua indignação. Pessoas com a visibilidade dos perfis citados devem saber os limites de se fazer piada, e aproveitar o espaço que têem para trazer consciência aos seus "seguidores".

nelsinho disse...

Infelizmente, estamos ainda muito presos aos estereótipos, sendo parte deles ou julgando-os. É preciso uma união de todos os gays, sem distinção de preferencia sexual, diva favorita ou estilo e fazer nossos direitos serem respeitados.

Parabéns pelo texto, Bruno, Divulgarei nas minhas mídias.

Markus Bizarrim disse...

Concordo 1000x contigo... o povo faz piadinha, nem os próprios GLBTs conseguem se levar a sério...
Já fica registrado aqui, q se os acusados sairem impunes, vou fazer um flash mob justamente com a frase q vc colocou aqui e eu usei o fim de semana inteiro:
Então quando eu levar cantada de uma mulher, posso sair dando porrada também???

Thom disse...

Bruno, Parabéns! É exatamente isso!

eu queria ver se surgisse uma notícia nova: "Gays espancam neo-nazis (ou homofóbicos) na Avenida paulista."

E aí como seria?

Foi simplesmente inacreditável a argumentação dos advogados dos agressores, e os comentarios dos pais, passando a mao nos filhos (coisa que devem fazer sempre). "Ah, eles foram provocados", "essa historia já acabou".

Acabou? E se o filho dela tivesse sido espancado e levado para o hospital? Ficado com cicatrizes, não apenas físicas? Teria acabado ali para ela?

Eu fico ultrajado com esse tipo de comportamento. EU não sou inferior a ninguém, nem mesmo me acho muito diferente, pq devo fingir ser quem não sou? Por que não posso manifestar afeto da mesma forma que qualquer outro pode?

De qualquer forma, querendo ou não apareceu no jornal nacional pq foi na Av. Paulista e pq eram jovens educados e de bom nível social. Mas e os espancamentos e mortes que ocorrem pela mesma razão de norte a sul do país? Quem fica sabendo? Quem se importa com essas pessoas?

Se na Av. Paulista esse tipo de coisa acontece, um local em que as pessoas em geral não se importam com manifestação de afeto homossexual, e nas outras cidades?

Agora, essa carta da Mackenzie é simplesmente vergonhosa. É a igreja se esquecendo que o Brasil é um estado LAICO, a separação Igreja-Estado é de 1890! O estado governa para direitos civis, direitos do cidadão, independente de seu credo. A igreja (qualquer denominação que seja) não tem o DIREITO DE REMOVER DIREITOS, de interferir nos assuntos de Estado. Chega a ser bizarra essa carta, partindo do princípio que nos EUA e Inglaterra a igreja presbiteriana não apenas aceita fiéis independentemente de sua orientação sexual como algumas províncias ordenam ministros homossexuais e até celebram casamentos do mesmo sexo.

Eu simplesmente cansei disso.

Thom disse...

Eu não preciso ser aceito, ninguém pode ser forçado a me aceitar. Mas tem a OBRIGAÇÃO de me respeitar, como respeitaria qualquer pessoa. Eu tenho o direito de ter a minha integridade, física e psicológica garantida, e qualquer violação a isso deve SIM ser um crime de discriminação, por que é isso que é.

E essa história de que o Brasil não está preparado para uma legislação melhor - que proíba a discriminação, que permita o casamento homoafetivo ou a adoção por casais homossexuais - para mim é balela!

A África do Sul, um país em que em 1994 negros eram separados dos brancos, reconhece a união de casais homossexuais desde 1996, o casamento desde 2006, gays podem servir no exercito e a discriminação por orientação sexual é crime!

Um vizinho nosso, bem católico aprovou a legislação que permite o casamento homossexual em 2010... Argentina!

Dos 10 países que tem essa legislação, 6 são MONARQUIAS - um sistema considerado ultrapassado. Até Portugal, um país conhecido como carola e extremamente católico permite o casamento homossexual.

Não apenas é a hora como estamos atrasados, tão atrasados como a Africa do Sul estava com o apartheid ate 1994.

Cansei de políticos que esquecem que além de suas ideologias estão direitos, que esquecem que o Brasil é um estado laico, que não tem coragem de fazer o que TEM QUE SER FEITO.

Marckye disse...

Nó, muito bom o seu post. Nem tem o q comentar...

Tom Zine disse...

Bruno, vc continua afiado como nos bons tempos da versão em papel do Tom Zine que agora, não sei se vc sabe, é inteiramente virtual.Dá uma passadinha por lá : TOM ZINE - O BLOG : http://paredesteto.blogspot.com

Alice disse...

Só o fato de espancar alguém e ainda agredi-lo com uma lâmpada (!) já deveria ser motivo de muita indignação, seja lá qual fosse o motivo. A sociedade está ficando indiferente à violência, e isso é muito perigoso... E a homofobia está crescendo assustadoramente e fazer piada com isso não ajuda em nada, apenas banaliza a situação.

Felipe Moreira disse...

concordo bastante com o texto mas discordo quando dizes que "Minha vida íntima não diz respeito a ninguém a não ser aqueles que me cercam, e disso não posso reclamar." Infelizmente a história e a política tem nos mostrado que a vida íntima é assunto sim, tanto da sociedade quanto do Estado, em constante diálogo. O formato que a vida íntima (legítima) tem tomado está fora do alcance daqueles que a vivem, basta olhar pra alguns anos atrás e ver que o termo "homossexualismo" era descrito como doença psicológica, distúrbio da psiquê, alguma ruptura no desenvolvimento "normal" do ser humano. Ainda são os ministérios e associações de intelectuais "ilustrados" que dizem o que devemos, podemos ou não devemos e não podemos ser. Aos que acham que a piada é uma forma de protesto, eu convido a ler duas vezes os posts da @katylene e @fabiorex e me apontar elementos de protesto ou indignação ali. E mesmo que me apontem, como foi dito no post, a realidade do Brasil não é a de uma boa interpretação textual e leitura nas entrelinhas... a vida "lá fora" não é a do 'comofas', nem todos tem acesso à essa linguagem e muito menos pode-se esperar que fique subentendido alguma revolta nestes posts. É tudo muito engraçado até alguém perder a vida...

Bruno Machado disse...

Caro Bruno,

gostei muito do seu post.

Não sabe o alívio com que vejo suas críticas a essas piadas do Twitter. Sempre me achei um chato por achar personagens como a Clyecianne um absurdo, por simplesmente usar de um humor fácil para brincar com estereótipos. O problema desse tipo de humor, ao meu ver, é a facilidade com que eles obtem seu efeito final - o humor. Não vão além do estereótipo, não buscam criar uma reflexão, uma auto-crítica à sociedade e ao seu preconceito, que não!, ainda não sumiu.

Os movimentos LGBT esforçaram-se muito e conseguiram o que queriam. Hoje, a militância esvaziou-se. Os homossexuais não precisam mais de visibilidade. Já temos isso. Precisamos agora de respeito, de tolerância. O que conseguimos é isso, ser imiscuídos num sistema de tal forma que agora ser objeto de piada ou ser objeto de agressão na Av. Paulista é algo que se dilui, da mesma maneira que se ridiculariza o estereótipo do português burro ou se mata uma mosca. É lamentável que muito foi feito para rirmos de piadas no Twitter, procuremos foda no Manhunt e todo nosso esforço se resuma em deixar nossos glúteos firmes numa academia de ginástica.

Obrigado pelo post.

Bruno Machado.

Joana Joana disse...

No final do seu texto, tem o seguinte: "Muitos vivem escondidos, disfarçando, mentindo". Acho que até esconder e mentir, se a pessoa estiver disposta a viver de uma maneira mais fácil, sem sofrer uma possível discriminação, é uma opção. Isso, é claro se não estiver prejudicando ninguém com isso.

Por exemplo: conheço um sujeito que casou-se com uma mulher, tem uma filhinha de um ano, é gay e sustenta essa posição(muito mal, por sinal) por interesse no dinheiro da esposa. A hipocrisia, esteja de que lado estiver, é uma doença. Opção é opção e ponto final.

Legal teu texto.

bruno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bruno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bruno disse...

parte 1
Acho que você tem um ponto, e um muito bom!
Há algo que me incomoda muito na "causa gay" que você coloca no final do texto, e alguma coisa não ficou bem clara para mim.
É que eu não entendo exatamente o que é a "causa gay", tá é a luta por direitos iguais e respeito. Mas o que é efetivamente essa luta? Por que até segunda ordem, você se mostrou descontente com o modo o qual a maior manifestação pelo direito gay, a Parada Gay, é tratada aqui no Brasil. Uma festa, e eu acho que a Parada realmente é uma festa, mas a parada militar já não era um tipo de festa? O que o de certa forma não tira em nada o caráter político dela, um caráter político não conservador. Mas se ela é só vista como festa, a parte em que ela deveria ser "séria", o protesto, as reendivicações e discursos no palanque ou no palco(e não há nada mais esteticamente conservador do que isso quando se trata de luta política) já se tornam em si mesmos uma piada, ou algo que não pode ser sério, uma vez que a festa é sempre maior. O meu problema da parada gay é o que me parece ser a uniformização do que é ser gay, ou do que é o coletivo gay. Talvez eu não saiba argumentar o porquê exatamente, mas quando eu fui numa parada gay, eu simplesmente sentia que toda aquela festa não fazia parte da minha vida, ou mesmo a parte séria, nada me dizia do modo como eu levo a minha vida, como eu levo a minha vida sendo gay.

bruno disse...

parte 2

Uma das coisas que acho que você coloca muito bem, é que essa luta pelo direitos através das leis e da criminalização ao desrespeito é também para as pessoas que vivem em um ambiente onde ser gay é ser tratado como escória. E alguém comentou das pessoas que sofrem retalhações e não têm o mesmo nível social dos que foram espancados na av paulista. Por que isso não aparece sempre como notícia? É difícil de engolir, mas a notícia só circula amplamente, pois os agredidos também têm um bom nível social, assim como os agressores que já estão soltos.
O que eu tentei expor é que pra mim há dois problemas, um social, ricos e pobres, o outro de representação, o que é ser gay e como isso aparece no mundo.
Por isso que eu queria entender, o que é a "causa gay", o que não ser calar, o que é lutar por direitos?
O que eu vejo como luta gay e me incomoda, principalmente pelo que eu expressei pela parada, é que o que eles proclamam como aceitação da diferença, faz justamente o contrário, faz apagar a diferença, como se "causa gay" fosse algo pertencente a um inconsciente coletivo e uniforme. As piadas se criam no momento em que as diferenças do grupo surgem. Quando eu fui na parada, tinha carros com mensagens de amor e deus(?), ambas em carros de políticos.

bruno disse...

parte 3
Então, o que realmente diferencia de ser gay ou ser hetero, se ao falar de ser gay falam em deus e amor(não que não haja amor e religiosidade em qualquer pessoa gay), mas a diferença não deveria ser o assunto pautado, respeitar a diferença? E o que diferencia gay de hetero não seria o que justamente acontece na nossa vida privada? Assim como o nosso direito a ser adquirido com o casamento não surge justamente dessa diferença na vida pessoal?
E então, para a aceitação do outro acontecer, não se faz necessário apagar essa diferença? isso pra mim soa como um ato conservador.
Não sei se ainda hoje piadas podem carregar algo de crítico. Eu percebo os dois comentários que você coloca da seguinte maneira, o da katylene expõe o que aconteceu na paulista, é uma piada, mas é também uma resignação irônica da realidade. a mensagem do fabiorex visa um tipo de ação inconsequênte e tola ironizando um tipo de ação que você toma como lenda. Pra mim, a piada ironica é uma autocrítica, e já está inserida na luta. E só uma luta conservadora não percebe isso.

O que eu gosto do seu texto, é a inquietação de que algo nisso tudo podia ser diferente. E apesar de eu não concordar contigo, também sinto a mesma inquietação. E também vejo em certo grau nos comentários postados por ti.

Anônimo disse...

há limites pra tudo. o humor não pode ficar fora dessa roda. muitas vezes, o politicamente incorreto é o mais engraçado sim. e abster-se totalmente do que é errado é utopia. você critica o comportamento "sou gay, mas me comporto como hétero", mas questiono o teu possível interesse em alguém esteriotipado. logo, de certa forma, o teu post acaba apresentando, mesmo que sutilmente, um caráter projetivo.

de qualquer forma, congratulations.

Gaby Stilita disse...

Bruno, meu amor... chega me deu saudade de nossas conversas na UECE ao ler esse texto....

Concordo em muita coisa contigo, mas eu acho que a questao vai além do preconceito ao homossexual.
O que anda acontecendo é a total falta de respeito ao outro, quem quer que seja esse outro. Veja os recentes casos de assassinatos de sem teto em Maceió e a estupez de um empresario aqui de fortaleza qeu foi preso atirando em flanelinha!! A falta de respeito é geral.

A questão das piadas é mais problemática, porque é uma espécie de falta de respeito respaldada pela própria "comunidade gay". A Tv é o maior exemplo disso! Figuras caricatas passam imagens erroneas do que vem a ser um homossexual. Tanto é que acaba sendo comum comentários do tipo: " Nossa! fulano é gay?? nem parece!!!"

Infelizmente, acredito que o preconceito pelo diferente sempre existirá (existe até mesmo entre os homossexuais). Mas que isso não se confunda com falta de respeito e violência gratuita!!

Leonardo Pedone disse...

Muito bom o texto!

Infelizmente é a nossa realidade e o mais triste é ver que isso vira piada até mesmo entre os gays. Devo confessar que ando com medo quando saio na rua, por fugir do padrão da sociedade.

Este caso só foi noticiado e discutido porque tanto os agredidos e os agressores, são pessoas da classe média e aconteceu em uma área nobre de São Paulo.
Existem inúmeros agressões a homossexuais, em periferias ou cidades menores, mas isso não é interesse da mídia em divulgar. Infelizmente, é uma realidade que não é mostrada, somente em casos excepcionais.

Espero que nas próximas gerações, possamos viver em um país com mais tolerância e respeito, não só como homossexuais, mas com diversos estilos de vida.

Anônimo disse...

Virou piada!!! . os homosexuais querem direito para se esfregar em publico. 80% dos ataques estão sendo por esse motivo . o ultimo que vi no jornal foi um bixa que se pego com outro cara no trem ...vai dizer que não queria provocar??
segurem a onda bixonas e vivam sem querer dar shown ao ceu livre que vcs nao vao incomodar ng

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